Um cheirinho do Médio Oriente

08
Nov 09

Eu confesso. Sou um empresário de trazer por casa, que decidiu investir num negócio fora de Portugal. A coisa corre mais ou menos bem e um dia recebo um convite da Embaixada Portuguesa na Regiao (vamos manter isto mais ou menos anónimo) para um jantar e cocktails. Os cocktails interessaram-me (qualquer Portugues gosta de bebida á borla) e lá fui entao conhecer o embaixador. Um jovem dinamico, ‘com vontade de mudar atitudes’ foi como foi apresentado por outros convivas que já tinham privado com o senhor.

 

Porreiro. Numa regiao (vamos manter isto mais ou menos anónimo) onde há tantas - sao mesmo muitas - oportunidades de negócio, é bom saber que Portugal está a acordar para o Médio Oriente (oh! Porra! Fugiu-me a boca prá verdade). Porreiro na mesma.

 

Por obra e graça de Allah acabei por ficar sentadito na mesma mesa do activo representante da República. Mesmo mesmo ao ladito dele. E, Portugal está perdido…

 

- Olá muito prazer, sou Fulano de Tal – apresenta-se o diplomata.

- Como está, o meu primeiro nome é de um dos apóstolos de Jesus e termina com aquilo a que se chama aos varredores de rua (vamos continuar a manter isto mais ou menos anónimo).

- Muito bem, é um nome muito Portugues. Sabe que a lingua Portuguesa é uma das razoes que me leva a estar aqui convosco. A defesa da nossa lingua é um dever de todos nós, blá, blá, blá… etc. e tal, mais blá, blá, blá.

 

Procurei conforto na minha primeira cerveja em alguns meses.

 

- Caro Apóstolo Varredor de Rua, já lhe dei o meu cartao?

- Er… nao… muito obrigado – desprevenido entreguei também o meu, enquanto reparava que o do embaixador estava todo escrito em Ingles. A defesa da lingua e da Portugalidade continuava em força com o endereço de email ‘fulanodetal@gmail.com’.

Depois observei melhor o dinamico jovem. Fez-me lembrar o meu avo, só que mais velho (e o meu avo já morreu).  As costas ligeiramente curvadas, o casaco abotoado apenas no segundo botao e aquele ar de quem foi mordido por um zombie e que a qualquer momento se irá passar para o ‘outro lado’. Os outros convivas tinham razao: o retrato típico do jovem Portugues.

- Diga-me homónimo do Discipulo do Messias que varre ruas, já pensou na sua reforma?

- Quer dizer… ainda sou novo… er…

- Voce pode continuar a descontar em Portugal, sabia? Apesar de aqui nao se pagarem impostos, com uma pequena prestaçao mensal que voce envia para Portugal voce garante o seu futuro.

- Pois… talvez… senhor embaixador… a embaixada tem uma secçao comercial? É necessário para dar algum apoio aos empresários Portugueses na regiao…

- Sabe caro Varredor, nós temos um consul honorário que trata desses assuntos mas, infelizmente, ele nao me atende os telefonemas já lá vai um ano. Uma maçada.

… - a cerveja acabou e nao tinha onde afogar as mágoas.

- Temos infelizmente, caro Varredor, uma pequena embaixada e esses luxos sao dispendiosos.

- Bom… nesse caso, permita-me que ofereça as instalaçoes da minha empresa para estabelecer (com todas as despesas pagas) uma secçao do consulado.

- Excelente ideia caro Messias!! Vamos pensar muito a sério nisso. E quanto a máquinas de escrever, temos nós que levar ou voce pode disponibilizar alguma?

- Bem… nós trabalhamos com computadores… máqui… já nao…

- Óptimo! Agora há aquelas coisas pequenitas que se levam para todo o lado com a informaçao e os ficheiros… Utube…

- USB?

- ISSO! Já agora o papel prá máquina das fotocópias, voce encarrega-se disso?

 

Fugi. Antes de sair ainda ouvi um discurso sobre a riqueza cultural de Portugal e a falta dela nos Países da regiao. Recebi também uma palmada nas costas e um ‘Vamos Trabalhar’ para terminar. Na saída cobraram-me 40 euros pelo jantar e a cerveja.

 

Um grande ‘vamos trabalhar’ pra voces também.

publicado por narizgrande às 12:29

13
Mai 09

Hoje lembrei-me do meu pai. Lembrei-me de quando era miúdo e juntos ia-mos ao cinema.

-         Pai este filme mete porrada?
-         Mete filho.
Lembrei-me de como era teimoso e por vezes distante. Lembrei-me que todos os Sábados ficava horas pregado á janela do meu quarto na esperança que ele me viesse buscar para um passeio ou para um gelado na pastelaria da esquina. Queria ve-lo estacionar o carro e dizer-lhe olá através da janela antes que subisse as escadas apressado. Queria ver se me trazia uma prenda. Queria correr para a porta, saltar-lhe para o colo e dar-lhe um grande beijo na testa.
Muitas das vezes não aparecia nem dizia nada. Era esperar ali, o dia todo, com um aperto no estomago e, apesar de ser miúdo, lembro-me de jurar nunca fazer isso aos meus filhos.
 
A minha mãe tentava desculpá-lo mas eu sabia que também ela chorava baixinho á noite no seu quarto. Partilhávamos aquela solidão em silencio, na esperança que o telefone tocásse e a voz do outro lado dissesse – “Tão prontos? Vá, vamos jantar e ao cinema”. Assim tão simples, como se tivesse saído de casa de manhã e estivesse de volta umas horitas depois.
 
Para jantar, o Galeto, o bifinho do Império ou a Brasileira. A mesa estava sempre pronta e o pessoal cumprimentava o Sr. Aurélio com reverencia. Sentados, faziamos o jogo das palavras. Quem perdesse pagava o jantar.
- H. Homem, hoje, helicópetro, holifante… Ah! Perdi, OK pago eu.
 
Depois o cinema. O Apolo 70, o cinema Berna, o Monumental, o estúdio do Império. Era ali sentado no meio dos meus pais, uma mão para cada um, que a minha família se transformava numa família de verdade. – Mete porrada pai? – Não filhote, hoje não.
Mas o título prometia. ‘Kramer contra Kramer’. Não! De certeza que ele se tinha enganado, com aquele título havia de meter porrada em alguma parte.
 
Não metia. Mas foi como um murro no estomago. Olhando para trás, talvez aquela noite tenha sido uma das mais felizes da minha vida. Aquele filme, feito no outro lado do mundo por alguém que nunca me tinha visto, estava a contar a minha história. Agarrado ás mãos dos meus pais apertei-as com força e chorei. Foi a primeira vez que chorei num filme.
 
Nessa noite o meu pai dormiu lá em casa. Cedo na manhã seguinte enrosquei-me no meio dele e da minha mãe e a medo perguntei:
-         Pai, prometes que ficas para sempre?
-         Sim filhote, prometo. – respondeu passando a mão pela minha cabeça.
 
E durante dez anos cumpriu a promessa.
publicado por narizgrande às 18:43

12
Mai 09

Não é fácil ser-se uma pessoa no Golfo. Homem, mulher ou bicha. Distinguir homem de bicha não é fácil e as mulheres parecem-se todas com o Darth Vader, só que mais assustadoras porque tem só uma sobrancelha.

Não sei quem é que meteu na cabeça que os Árabes são uns sortudos por poderem casar com quatro mulheres. Obviamente quem pensa assim, nunca foi casado na vida. Nem nunca se imaginou na cama com uma aprendiza do lado negro da força e com um sabre de luz espetado na carteira.

Sim, eu disse carteira. Porque toda a mulher local tem como objectivo de vida, queimar a maior quantidade possível de dinheiro em cremes de beleza cuja única qualidade é... bem... não funcionarem.

Andamos nós pela Europa muito preocupados em sermos politicamente correctos, o respeitinho é muito bonito, a não dizer preto, monhé, paneleiro, a ter cuidado com os cartoons que desenhamos quando aqui se pode passar em prime-time televisivo anúncios de moças castanhas que, coitadinhas, não aceitam casar, trabalhar ou executar qualquer outra tarefa á face da terra, antes de  porem nas fuças um creme que as pinte de branco, ficando está claro muito mais bonitas.

Obviamente, com mulheres assim, muitos Árabes dão em bicha. Há muitos. Montes mesmo. De sobrancelha arranjadinha e malinha Louis Vuitton lá vão namorar prá matiné do cinema, aos saltinhos e de mãozinha dada.

- São tão queridos – comentava a marida nos primeiros 6 meses.

- Irra mais á paneleiragem – é o comentário menos malcriado de hoje.

As minorias perdem a graça quando atingem maioria absoluta.

 

De vez em quando, lá obrigam um pobre mocinho a casar só para manter as aparências. E digo pobre, porque é assim que o rapaz fica, depois de pagar o dote á noiva e respectiva família.

Sendo rapazes dados ao negócio, eu ainda não percebi porque é os Árabes estão dispostos a pagar tanto por um produto de tão pouca qualidade, com muita quantidade em stock e que não se pode abrir antes de usar.

Recentemente, e talvez por haver muita gente a devolver o produto á procedência, inventou-se o noivado.

O noivado muçulmano é assim uma espécie de contrato de promessa de compra e venda. O primeiro autorgante promete que paga, se o segundo autorgante não se vender a mais ninguém. Pode-se abrir e experimentar o produto, mas pagasse a dobrar se se devolver o material depois de quinze dias de utilização.

Alguns contratos são pormenorizados até ás lágrimas:

Se queres sexo três vezes por semana – Compras uma vivenda com 6 quartos.

Entrada pela porta das traseiras – Ficas na rua até pagares o empréstimo da casa ou um Mercedes CLK 0km.

 

Eu casei-me pela Igreja mas só porque fui obrigado. Por mim tinha-me casado na pastelaria Bénard ou então numa churrasqueira, porque acho que Deus está em todo o lado. Até num bolo com chantilly ou numa qualquer arca frigorífica onde estão guardados aqueles deliciosos banana-splits do Restaurante Galeto.

Ainda por cima, num ímpeto revolucionário, os meus velhos tiveram a brilhante ideia de não me baptizar quando eu era criançinha, transformando o desde sempre penoso percurso de tentar marcar um casamento religioso, numa autentica via sacra.

O padre Pedro esfregou as mãos de contentamento e lançando um olhar beaticamente malévolo, anunciou.

- Vais ter de fazer a comunhão.

Eu percebi caminhão e não liguei muita importancia. Mal eu sabia das horas que iria passar, sentado num cadeira de pau (sem segundos sentidos aqui, hein!), a ouvir falar dos evangelhos e, pior que tudo, dos cortes orçamentais na diocese que não permitiam aumentos no pagamento das missas.

 

Depois tive aulas teóricas de sexo.

Julgo que seria mais prático para toda a gente envolvida neste processo passar directamente á prática. É que o sexo ensinado por um padre, é a mesma coisa que a matemática ensinada por quem não sabe a tabuada dos 2. Quero dizer, há que ser profissional e se a igreja se dá ao trabalho de fazer estas coisas, ao menos que empreguem gente competente e com alguns anos de experiencia no assunto.

Importar Filipinas seria uma boa solução. Não só para as Filipinas mas também para a democracia. Há que combater os monopólios e, como o mercado é dominado apenas pelos países do Golfo está-se a colaborar com situações de injustiça social.

Além disso seria bom para Portugal também. Com uma boa estratégia de marketing e algum re-branding, podíamos exportar essa matéria-prima para países onde o sexo ainda é pior que numa paróquia. Estou claro a falar dos países nórdicos. Só assim se explica o assédio estival aos pescadores desdentados do Algarve por parte de vibrantes moçoilas cor-de-rosa, chegadas desses desolados e destituídos países.

 

publicado por narizgrande às 13:47

No Golfo não existe aquilo a que chamamos o 'primeiro dia de trabalho'. Naturalmente um Árabe achará que qualquer novo trabalhador, já terá trabalhado noutro qualquer lugar, não havendo – segundo ele – a  necessidade de explicar normas, procedimentos, documentos, apresentar pessoas ou mesmo indicar onde fica a casa de banho.

Limpar o cú é uma tarefa difícil por aqui. O rolo de papel é um conceito estranho em qualquer empresa Árabe, tendo sido substituído por uma mangueira de alta pressão.

Instalada ao lado da sanita, tem por objectivo o lavar das partes depois de feito o serviço. Tenho para mim que é preferível sair com as cuecas borradas a usar esta geringonça. Se a usar irá sentar-se na próxima reunião com a peida molhada até aos intestinos e com os sapatos a fazerem 'shlak' shlek'. Terá também os tomates completamente escalfados, porque em lado algum estava escrito que a água saía a ferver.

 

Bom, sobrevivendo á missão 'necessidade fisiológica de carácter sólido', eis-nos chegados ao posto de trabalho. De si espera-se (no mínimo) que saiba tudo sobre tudo, que tenha respostas para tudo, que nunca tenha dúvidas e que raramente se engane. Familiar? Óptimo, é sempre bom ter conhecido alguém que se tenha safo a agir assim.

Mesmo que tenha alguma dúvida, não vale a pena perguntar nada. O seus subordinados são Indianos e só sabem responder 'sim' a tudo:

- Olá, sabe onde é a máquina do café?

- Sim.

- ... er, é aqui perto? Direita? Esquerda?

- Sim.

- Percebeu o que eu perguntei? (irritado, apesar de não valer a pena).

- Sim. (muito assustado, com medo que o mandem matar por esfolamento).

- Mau. Tamos a brincar ou quê?

- Sim. – sorrindo e abanando a cabeça da esquerda pra direita e vice-versa paralelamente.

O pessoal do sub-continente tem este tique estranho do abanar a cabeça. Não é 'sim' nem 'não', é assim uma espécie de 'nim' que repetem até à exaustão enquanto falamos com eles.

Mas calma. Não vale a pena procurar a máquina do café. Peça ao Indiano que lhe traga um. Ele vai concerteza dizer que sim.

 

Haverá também funcionários Filipinos. Estes só sabem responder 'NÃO'. A tudo. Além disso não conseguem dizer os 'F', tornando qualquer tentativa de comunicação infrutífera.

- Bom dia, pode-me fazer 3 cópias deste documento e entregar ao Hassan?

- Não. Pui ontem pazer e agora já não há papel.

- Limpe com o jacto de água (tentar fazer humor só piora).

- Não. Posso estragar a máquina.

- Vá lá, faça um esforço e diga ééééffffffeeeee...

- Não. Pico opendido, eu sei dizer os érpes perpeitamente.

 

Nenhum Europeu normal, aguenta trabalhar nestas condiçoes mais do que uma semana sem invocar a morte do tal familiar. Felizmente, os Portugueses não são Europeus e adaptam-se lindamente à bagunça generalizada.

Não meus amigos, nós não somos Europeus. Nem Africanos. Nem nada que se pareça com nada. Gostamos de coisas que mais ninguém gosta (fado, novelas da TVI e pegas-de-caras), fazemos coisas que mais ninguém faz (julgamentos que duram anos, obras públicas que derrapam mais que o carro do Sebastien Loeb) e elegemos criminosos para cargos públicos só porque são do nosso clube. Somos Árabes. Mas sem petróleo. Até o Saramago anda a fingir que é Espanhol, só para ter algum respeito.

 

Estranhamente, o pessoal do Médio Oriente gosta de nós. Quando descobrem um Português desatam a desbobinar, todos contentes, sobre os bons e valentes anos em que os explorámos e matámos a torto e a direito (o Vasquinho da Gama). E até este gosto macabro pela morte e o choro constante da vida nos unem como um povo só.

 

Mas voltemos ao trabalho. Bom, os Árabes não trabalham. Pagam para que outros trabalhem por eles. Não, espera. Na realidade existem dois tipos de Árabes: os Sunitas e os Xiitas.

Os Sunitas não trabalham. De todo. Os Xiitas trabalham duro quando se trata de matar Sunitas.

Uma empresa Sunita por norma não emprega Xiitas, assim como o contrário também é válido. O problema é que 90% das grandes empresas são Sunitas, o que deixa os outros coitados chateados, desempregados e sem dinheiro. Estão a ver onde é que isto vai dar... não estão­?

 

Como é que se estrutura então a empresa Árabe?

Sunita – Patrãozinho. Chega por volta das 4 da tarde. Sai por volta das 4 da tarde.

Europeu – Pago a peso de ouro para fingir que trabalha. Por estas bandas também é fino ter um Director Geral louro e de olho azul.

Português – A prata também é um metal precioso, só que mais fácil de trabalhar.

Xiita – Passa o tempo a conspirar a morte do patrão e a ver videos pornográficos no telemóvel. Como só perdem a virgindade por volta dos quarenta anos, estão permanentemente e literalmente prontos a explodir.

Indiano – O bufo por natureza. Mete tudo no cú do patrão (sim, até aquilo que estão a pensar).

Filipino – O Patrão mete tudo no cú dele (sim, principalmente aquilo que estão a pensar).

Paquistanês – Até hoje ainda não percebi bem qual a função dum Paquistanês numa qualquer empresa. Nem no mundo, se pensarmos nisso.

Até prova em contrário está por cá para levar os carros, que ele próprio arruína, ao bate-chapas.

Mulheres – Ainda não vi uma mulher trabalhar por estes lados. Na realidade ainda não vi uma mulher.

 

Mas o dinheiro cai do céu. Paga-se adiantado meus amigos!! O cliente encomenda e paga já de seguida. Pronto, neste aspecto somos um bocadinho diferentes. Se isto acontecesse em Portugal, no dia seguinte a empresa estava recolocada no Brasil a viver paulatinamente dos ´rendimentos´. Tenho que reconhecer que este conceito de honestidade e ética orçamental, foi um pouco difícil de assimilar depois de tantos anos de trabalho Luso. No começo chegava a casa um bocado atordoado por ver tanto dinheiro entrar, sem ainda se ter iniciado qualquer projecto. Também não ajudava, o facto de toda a gente pagar em dinheiro vivo. Montes de notas para depositar, que postas na mão do miserável Paquistanês seria o equivalente, em Lisboa, a dar as chaves do Porche a um moçinho da Quinta do Mocho para ele parquear o bicho e esperar que ainda pagasse o parquímetro.

 

Depositar cacau num banco Árabe é por si só uma experiência alucinante. Para já, o conceito de horário de trabalho é coisa de que só vagamente se ouviu falar. Assim sendo, quando nos dirigimos a um balcão, nunca sabemos se vai estar aberto, fechado ou assim-assim (os funcionários estão lá dentro, mas não lhes apetece abrir a porta). Mas admitamos que a porta está aberta e há gente por lá a trabalhar.

Entram então os pobres Paquistaneses, a maioria com montoes de notas nos braços (sim, literalmente) que a custo colocam em cima do balcão para o funcionário contar. Ora este processo pode ser um pouco moroso, o que significa perder uma tarde inteira a olhar para rios de dinheiro que, infelizmente, não nos pertencem e que mais tarde vão servir para comprar um clube de futebol e empregar o José Mourinho.

Também é giro o processo de pedir um empréstimo num banco Islamico. Depois de se responder a estas três perguntas difíceis:

- Tens trabalho? - Sim.

- Tens conta aqui? - Sim (não é necessariamente necessário).

- Tens Mãe e como se chama? - Sim e Helena. E não, não estou a brincar, eles perguntam mesmo isto.

Passamos então a um poderoso mecanismo de escrutínio que consiste em apresentar uma fotocópia do passaporte, e pronto já está. Aprovado. Dinheiro na conta. Era para comprar um carro mas podemos comprar uma Filipina se nos apetecer, ninguém leva a mal.

 

Há muita gente a comprar Filipinas hoje em dia. Segundo dizem, consomem pouco e fazem-se muitos quilómetros sem haver necessidade de mudar o óleo (têm boa lubrificação). Porque são pequenas, só levam um dono de cada vez, o que faz valorizar aquando da troca.

Nestes tempos modernos, em que redescobrimos a nossa condição de pobres, é bom saber que ainda há coisas mais pobres do que nós.

publicado por narizgrande às 13:45

Agosto não é o melhor mês para se chegar ao Médio Oriente. No momento em que se põe o pé fora do aeroporto, já se está a desejar voltar para trás rapidamente e em força. O calor é tanto que parece uma bomba a explodir devagarinho, num instante todos os porquês em relação aos motivos que levam um homem a querer fazer-se rebentar, ficam esclarecidos­. Mais vale morrer depressa do que assim, aos bocadinhos. Olha...estranhamente, morrendo depressa também acabas em bocadinhos.

Mas eventualmente um tipo habitua-se. Os que usam óculos demoram mais tempo porque não conseguem ver nada, a humidade embacia as lentes cada vez que se põe o cú na rua tornando até a simples tarefa de chamar um taxi, impossível de realizar.

 

Nunca se deve andar de taxi no Médio Oriente. Ponto final, parágrafo, travessão. Se por uma raríssima conjugação de factores não houver outra hipótese (ter as duas pernas amputadas e o caminho de volta é a subir, impedindo-o de rebolar até ao destino), só se deverá pôr um cabelo que seja dentro da viatura, depois de garantir os seguintes pressupostos:

1-Que o condutor não é Árabe. Se for, e não tiver combinado préviamente o preço da viagem, vai ver o seu dinheiro ser-lhe sugado por um vampiro com cio.

2-Que o condutor não é Indiano. Se for, vai concerteza perder-se de propósito e as 3 horas que demorar o percurso vão ser passadas a ouvir o grande sucesso "Radjivandreleportmele" em altos berros.

3-Que o condutor não é Paquistanês. No Paquistão não existem estradas e deve ser proibido conduzir com carta de condução.

4-Que o carro não tem o controle de velocidade apontado nos 340km/h.

5-Como de certeza o condutor vai falar ao telemóvel enquanto bebe café Turco, não lhe vão sobrar mãos para usar o volante. Assim, deverá despedir-se dos seus familiares e fazer o seu testamento antes de iniciar a viagem.

 

Nunca deverá em caso algum aceitar trabalhar numa empresa Árabe, sem previamente ter planeado com detalhe a morte de um familiar próximo. Isto é muito importante. A 'verdade' não é para ser dita quando se deixa uma empresa. Apenas um falecimento inoportuno poderá quebrar um contrato de trabalho sem levantar a suspeita de que esteja a sair com intenções malévolas, levando todos os clientes consigo.

Desde o primeiro dia de trabalho todos os colegas e especialmente o patrão, deverão saber quão chegado você é á avó Jacinta, quanto lhe custou ter deixado a velhota e como a sua saúde é frágil.

A diabetes é uma óptima doença. A avó Jacinta deverá ser diabética. Os Árabes em geral arrastam o cú pela vida, passando o tempo a comer doçes com aspecto asqueroso, tornando-se invariavelmente diabéticos.

No golfo há mais hospitais para diabéticos que células cancerosas num tumor maligno. Assim, o sofrimento da avó Jacinta – e por consequência o seu – será compreendido pelos indígenas. Terá o seu bilhete de regresso e uma lágrima no canto do olho sem necessitar temer pela própria vida.

 

Todos os Árabes – especialmente o seu novo patrão – vão dizer que são seus irmãos. Isto deve-se ao facto de ao fim de séculos de casamentos intra-familiares, os pobres coitados estarem confusos sobre quem é realmente 'família'. Ou então estão só a querer ser simpáticos, mas isto só acontece se tiverem alguma coisa a ganhar, assim:

- 'Meu irmão, tenho um problema muito grave, meu irmão.

- Ai sim? Conta lá, se puder ajudar nalguma coisa...'

- Meu irmão, apareceu este trabalho para amanhã e este cliente é um irmão meu... meu irmão ajudas-me a resolver este problema?

- Er... bem... se precisas...

- Serás sempre meu irmão. Eu sei que vais ter de ficar a trabalhar a noite inteira, mas este cliente é nosso irmão.

- Achas que posso contar um dia extra nas férias para compensar?

- Inshallah.

Isto significa não. Sim também significa não. A palavra 'não' só é utilizada como resposta a uma pergunta feita na negativa.

- Esta Filipina não tem herpes, pois não?

- Não, não, não (la, la, la) meu irmão, conheço a irmã dela – é minha housemaid – são uma família muito saudável...

 

Os Árabes dividem o mundo em 4 partes. Os ocidentais, que  podem todos ser incluídos no agrupamento 'irmãos'. Os Indianos e Paquistaneses no grupo 'irmãos-inferiores-para-explorar-até-à-medula', os Asiáticos 'irmãos-para-saltar-para-cima' e finalmente os Israelitas: escumalha-que-deve-ser-morta-antes-dos-'irmãos'-ocidentais.

Como é que se pode querer liquidar alguém a quem se chama 'irmão?', perguntei-me eu. Fácil. Como há pouco que fazer, sofrimento é sinal de que se está vivo.

Os moços do subcontinente Asiático não podem ser mortos, pelo menos não rapidamente. Com as suas mãozinhas esfomeadas constroem estes países gordos de dinheiro, vestidinhos com os seus fatos-de-macaco azulinhos alinham-se ordeiramente na parte de trás de uma pick-up velha e sonham em mandar os 50 Dinars que ganham ao mes, para a família que sobrevive na aldeia branca que deixaram para lá do mar... vamos brindar.

 

Mas vamos lá trabalhar.

publicado por narizgrande às 13:43

Quando olho para trás, parece que já vivi muitas vidas. Vidas compartimentadas e organizadas por episódios, assim uma espécie de telenovela Mexicana em que os personagens mudam mais rapidamente que os ministros de um governo minoritário.

A principal diferença entre uma novela Brasileira e Mexicana é que na primeira, se deixarmos de a ver durante 3 meses, quando reatamos continua tudo na mesma. Os ricos continuam ricos mas infelizes, os pobres cada vez mais pobres mas muito agradecidos a Deus por tanta felicidade. O Mau ainda é Mau. Os bons, bons permanecem e aquele rapaz que não tinha decidido se era gay, ainda não desmarcou o casamento para ir finalmente viver uma linda história de amor com o robusto mecânico da favela.

A novela Mexicana já é um pouco mais acelerada. Se desviamos o olhar para o pacote de tremoços já a rapariga se casou, teve três filhos, matou o marido infiel, cumpriu trinta anos de prisão e voltou para se vingar de quem a tramou na vida.

 

A minha primeira vida dura até aos 9 anos e acaba com o 25 de Abril. Nesse dia fui porreiramente para a escola e, como todos os dias, fiz o percurso que separa o Arco do Cego do Saldanha só para encontrar o portão da escola fechado. Felicidade. Alegria. Já posso ir jogar à bola.

Não voltei para casa e corri o mais rápido que pude para casa do Fitinhas. Lembro-me que era num pátio interior, sossegado, protegido do trânsito e do mundo lá fora. Ideal portanto para se organizar uma valente futebolada. Passei toda a manhã como avançado centro, feliz da vida a estoirar boladas contra o pobre do irmão mais novo do Fitinhas, que por ser pé chato ficava sempre na baliza.

O meu velho só me descobriu já perto da hora do almoço. Tinha andado por meia Lisboa à minha procura, telefonou a meio mundo até que alguém se lembrou de lhe dar a morada daquela praçeta meio escondida.

Nesse dia levei uma estalada completa. Foi a única vez que o meu pai me bateu, mas deu para perceber que, afinal, o mundo não girava à minha volta.

 

25 de Abril sempre e tal e tal e de repente estou no Liceu Cam­ões a desviar-me das escarretas do Vergílio Ferreira. Essa foi outra vida, mas não me lembro muito bem dela... sei que foi aqui que conheci dois dos meus melhores amigos (só tenho quatro) e pouco mais. Ah! e chumbei tres anos. Ah! e suponho que ficaram curiosos em relação ao Vergílio. Simplesmente o melhor professor de Português que alguma vez tive. Tinha, no entanto, o hábito de no meio da aula, sacar do seu lencito de assoar e puxar das entranhas uma valente escarreta que arremeçava com ímpeto na direção do lenço estratégicamente colocado há distância de um braço.

Tudo isto estaria muito bem, não fossem as correntes de ar. Os lenços não se dão bem com elas, ficam irrequietos, esvoaçam, transformam-se em alvos difíceis.

Quem ficava sentado mesmo à sua frente, temia muito pela higiene pessoal. Mas o velho mestre nunca falhou. Nem mesmo nos dias em que as janelas abertas deixavam entrar o vento quente de verão. Pacientemente, esperava o momento certo e com um poderoso remate da glote convertia mais uma penalidade gargantual.

OK. Lembro-me também de passar mais tempo na Tasca do Careca do que nas aulas.

 

Quando finalmente percebi que o estudo pode danificar seriamente os tempos livres, decidi que queria ser artista e fui para a António Arroio.

Tempos felizes os da António Arroio, se pudesse tinha lá ficado para sempre. A estudar pouco ou nada, a jogar ping-pong com a mão esquerda para o Victor gordo ter hipóteses de ganhar um jogo que fosse, a jogar "tacoball" nos corredores do piso -3, a fazer desenhos de nus, a fugir aos ciganos e principalmente a namorar com a Mena.

 

Conheci a minha marida ali. Lembro-me quando entrou na sala do professor Lebroto.

- Ná! Baixota – comentei pró Ventura.

- Grandes pára-choques – filosofou ele.

- Mas conhecerá Kant? – inquiri curioso.

- Essa Kant é boa?. – Tenho saudades do Ventura.

 

De repente a vida acelerou. Num instante dei por mim a trabalhar para o meu velho e para o meu tio. Um erro grave. Depois de adulto, família é só para se ver de vez em quando, Natal, casamentos, funerais e afins. Mais do que isso é coisa de gente efeminada.

Como nunca se responde torto a um pai como se responderia a um qualquer outro anormal, os colegas começam a pensar "lá vem o filhinho do papá" e está-se quilhado pró resto da existencia.

Um tio devia ser para um sobrinho assim como o sexo é para um padre. Sabe-se que existe, ouviste dizer que é porreiro, mas hoje não posso porque Deus não quer e prontos.

Pirei-me dali e fui, mais a marida, fazer a minha existencia para outra freguesia. Tudo aquilo com que se sonha quando se é adolescente, torna-se finalmente realidade. Uma nova e fascinante vida começa. Trabalho-casa-trabalho-IRS-IVA-IA-empréstimo-trabalho-compra casa-trabalho-IRS-IVA-IA-seguros-trabalho-casa-trabalho-filhota-dois carros porque um já nao chega-empréstimo-trabalho-noites sem dormir-IRS-IVA-IA-seguros-cartao de crédito-trabalho-trabalho-trabalho... Bem bom, nao é?­­

publicado por narizgrande às 13:42

Ser casado comigo deve ser complicado e conheço apenas duas mulheres que me conseguem aturar: a marida e a filhota. Todos os outros elementos do sexo feminino fogem de mim como o diabo da cruz. Nem a minha velhota tem pachorra para tanta parvoeira. Sou assim um Pinto da Costa da minha rua, só mesmo os ferrenhos é que me seguem.

Ao pé de mim o Shreck é um tipo engraçado e bem parecido. Quando a filhota se queixou que não arranjava namorado (ela tem 7 anos) e perante a minha oferta como voluntário, a resposta foi seca: "Não! Quero um que tenha um nariz normal".

Além disso, os cabelos que tinha na cabeça desapareceram, com a infeliz contrapartida de as minhas costas estarem cada vez mais parecidas com as do Tony Ramos. Quando estou na praia, já começei até a ouvir aquela piada muito original "então não tiras a t-shirt preta pá?".

 

Ser casado comigo deve ser ainda mais complicado, quando um dia, ao fim da tarde, se chega a casa e se anuncia – "Prepara as malas que pró mês que vem vamos embora".

- Ai que bom, de férias? – pergunta a marida.

- Não, pra trabalhar – respondi a medo.

- Ai sim? A fazer o quê? – o tom de voz a denotar irritação.

- Bem... Director Criativo... ganha-se bem... podem-se poupar uns cobres...

- Que bom, pra que sítio? – demonstrou interesse, os "cobres" parece que tinham amanssado o bicho.

- Bem... quer dizer... er, para o Médio Oriente.

Aqui fica o aviso de que nunca se deve dar uma notícia potencialmente desagradável a uma mulher que esteja a lavar a loiça – principalmente talheres – porque para além de ser doloroso ter um garfo espetado nas costas, vamos ter que levar com o discurso "fizeste-me partir o serviço de loiça da minha querida avózinha", para toda a eternidade.

 

Quando se anuncia à família e ao amigos uma decisão assim importante, obtêm-se, como seria de esperar, as reações mais diversas. Uns apoiam sim senhor, outros nem por isso (estão com problemas no carro e isso pode ser muito absorvente) e outros ainda – estes é que eu aprecio – balizados pelo seu conhecimento porque um dia viram um filme em que o Rambo foi ao Afeganistão salvar o querido Coronel, dão o seu conselho:

- Tu tem cuidado pá!

Tu tem cuidado. Pá? Tu viste os filmes todos do Steven Segal e só me sabes dizer "tu tem cuidado pá". E que tal ensinar como é que se desarma um homem-bomba, ou pior ainda, uma mulher-bomba.

Eu já vi mulheres bomba e sei que são perigosíssimas. Um tipo fica ali parado a babar-se de medo, incapaz de fazer um gesto que não seja obsceno. E no Médio Oriente um gesto obsceno, meu amigo, pode pagar-se obscenamente caro.

 

A filhota achou bem desde que houvessem gomas.

publicado por narizgrande às 13:40

Muito simplesmente a visão empresarial Portuguesa tem 40 diopetrias, astigmatismo e miopía. A missão é impossível.

 

A Portugal faz-lhe falta uma guerra civil. Esta ideia não é minha (obrigado Jorge Ricardo) e aqui há uns tempos achava que não era preciso tanto, mas se pensarmos bem, qualquer país decente teve já, em tempos, a sua guerra civil. Limpa a porcaria, ajuda a estabeler prioridades e quando bates em baixo, não há outro caminho a não ser para cima.

Nós não. Andamos neste rame-rame da merda, a fingir que somos evoluídos, mas com governos sem tomates que nem sobre questões de saúde pública – como o aborto – são capazes de tomar decisões. Aqui, verdadeiramente, não se tomam decisões... formam-se comissões para desenvolver "um estudo de impacte ambiental, que desprovido de qualquer ambivalência permitirá no futuro próximo chegar a uma conclusão quanto ao caminho a tomar dando assim uma perspectiva abrangente e estabelecendo um quadro organizativo em termos temporais e físicos para uma decisão consubstanciada em valores e dados científicos consensuais". Perceberam? Eu também não, mas o objectivo é esse. Enquanto estamos a pensar que devemos ser estúpidos, alguém se livrou de mais uma polémica.

 

Normalmente as guerras civis têm na sua base de conflito, valores díspares tão fortes e profundos que só podem ser resolvidos na base da porrada. Shiitas e Sunitas, pró e anti escravatura, fascistas e comunistas, monarcas e republicanos, e em Portugal... benfiquistas e portistas. Verdade seja dita, nós nem uma porra de um motivo para uma purga temos. Os do Porto não gostam de Lisboa, mas de vez em quando lá veem visitar o oceanário e as coisas ficam resolvidas por uns tempos. Os de Lisboa não gostam de ninguém, por isso vão para a praia e assim sempre ficam de costas para o resto do país. Os Alentejanos são uns porreiros e gostam de toda a gente, menos deles. Portanto resta apenas o futebol.

 

Sugiro que se armem as claques com armas de destruição massiva. A Alqaeda treinava os Super Dragões e a Mossad os Diabos Vermelhos. O nosso major aparecia do nevoeiro, tomava o poder e todo o povo Português teria electrodomésticos de borla para o resto da vida. Viva Gondogal. Depois invadia-se a Madeira e criava-se um novo hino para o Reino de Gondogal e Portudeira. Os Açores davam-se aos Americanos a troco de uma nova fábrica de caramelos vaquinha.

 

Tudo corria bem, quando bati com a cabeça no penico e acordei. Portugal continuava na mesma e eu também... o mesmo emprego e a mesma vida de hoje-é-dia-quinze-e-já-entrei-no-plafond-da-conta-ordenado.

publicado por narizgrande às 13:37

O que é que faz uma agência de publicidade? Ou melhor, o que é que um Director de Arte faz numa agência de publicidade? Bom, segundo o meu vizinho, o meu ex-patrão e 99% dos mortais... nada. Sou um inútil para a humanidade, excepto para a minha mãe e talvez a minha filha, que acham que eu sou um génio. Quanto a mim acho que estou mais ou menos no meio... entre o inútil e o Eugénio, quero dizer.

 

O próprio título engana. A não ser que se trabalhe com alguém chamado "Arte", não se é propriamente "Director" de nada. Muito pelo contrário. Quase toda a gente acha que pode fazer comentários (mesmo os mais idiotas) sobre o teu trabalho. "Não gosto do céu azul", "o tipo de letra está demasiado legível", "espaços brancos só criam vazios", "o preto é uma cor muito escura". Socorro, deixem-me em paz.

Neste aspecto da crítica, as meninas da contabilidade são particularmente perigosas, só porque processam os ordenados acham que têm o direito de questionar conceitos, estratégias e maneiras de vestir assim sem mais nem menos. Eu acho que a informática em última análise, foi criada para eliminar as meninas da contabilidade e só por isso estou grato ao inventor. O problema é que se criou outro mal maior: o técnico de informática.

 

O único propósito na vida de um "técnico de informática" é o de criar problemas aos colegas, só assim ele justifica o dinheiro que recebe ao fim do mês.

E eu tenho provas:

O departamento criativo precisa de computadores novos. O bandido aparece, analisa, e chega à conclusão que se podem poupar uns cobres se, em vez do MAC xpto carapuço comprarmos só o carapuço. Depois reaproveitamos os monitores em mogno que temos na arrecadação e está feito... Passadas 6 semanas ainda estamos a calibrar os monitores e a impressora laser de milhões de cores só imprime a 1 cor porque o sistema não é compatível... mas o patrão está contente porque poupou 1300 euros nos xptos.

Tudo isto nos leva portanto ao topo da pirâmide. O Patrão. O Gestor. O Empresário Moderno. Se for Português e gerir uma agência de publicidade é normalmente e até prova em contrário, filho do patrão. Essa é a sua principal qualidade. O fulano não está ali para trabalhar, ele está ali para mandar nos outros, excepto no pai.

A frase "mas afinal quem é que manda aqui?" é de uso muito comum nas empresas Portuguesas e é normalmente aplicada para acabar com alguma discussão que se perdeu por falta de argumentos e inteligência. E acho que só se aplica a Portugal. Aqui, um tipo que "manda" está demasiado ocupado para pensar ou realmente produzir alguma coisa. Tem que se mandar alguém telefonar ao cliente, mandar fazer a campanha pró banco, mandar buscar um café, mandar a menina Matilde comprar umas prendas pró filho que fez anos e mandar os outros levar onde o sol não bate.

 

O Empresário de Publicidade não tem só um negócio. Tem vários. Provavelmente um restaurante italiano, um stand de automóveis semi-novos e uma casa de alterne – e mesmo que não tenha nenhum dos mencionados é concerteza frequentador assíduo de pelo menos dois deles. O mercado e os potenciais clientes que os frequentam assim o exigem.

 

No fundo da pirâmide está portanto o Director de Arte. Eu. A senhora Catarina está acima de mim porque vai limpar às 6 da manhã e nem sequer tem de levar com o mono do filho do patrão. Nunca o viu e se o vir não sabe quem é.

O Director de Arte. Eu. Tem inveja de não saber fazer mais nada, tudo porque quando era pequeno ficou viciado em fazer desenhos e, o curso profissional de canalizador ou pintor da construção civil lhe passou ao lado. Se os tivesse agarrado, agora sempre tinha algum trolha Ucraniano licenciado em medicina em quem mandar. Parvo.

O seu único consolo eram os "bonecos", era "artista", até a tia Natália lhe comprava as BDs que fazia, para as oferecer como prenda de Natal. Depois apareceu o Steve Jobs e estragou tudo. Agora está agarrado ao  MAC OX com o Photoshop, html, xml, css e outras siglas que parecem vindas de um curso pós laboral de geometria descritiva criado pela CGTP a encherem-lhe a mona.

 

A vida corria  pois, a modos que normalmente. Digo "corria" porque um dia ao regressar de férias estatelou-se no chão e desde então passou a andar muito mal, coitadinha.

Nesse dia foi apresentado ao Director de Arte – Eu – o novo e reestruturado departamento criativo, todo já embrulhadinho com um novo Director Geral. Um moço com quem simpatizei e passei a chamar de cu-de-pedra. Isto porque desde que chegou revelou alguma dificuldade em levantar o dito cujo da cadeira.

O cu-de-pedra era muito amigo do filho do patrão e gostava de ser tratado por Dr.

 

Aqui vou fazer um áparte para abordar este fenómeno Português do Dr. Ora eu tenho para mim que o Xô Doutor, é o gajo que nos trata duma gripe, de um braço partido ou de um corrimento qualquer. Não é alguém que trabalha connosco ou mesmo alguém que acabámos de conhecer e a quem casualmente perguntamos "Desculpe, o seu nome...?"

- Doutor Fulano de Tal.

- Ai sim? Coitado. Os paizinhos quiseram dá-lo quando nasceu? Dou-to, dou-to... e ficou Doutor.

 

O cú-de-pedra era então muito amigo do filho do patrão e gostava de ser tratado por Dr. O Doutor cú-de-pedra tinha pois ideias brilhantes e revolucionárias que iriam "levar esta empresa para a frente". O problema é que era para a frente de um autocarro sem travões.

Ideia número 1: Quando uma empresa está com dificuldades económicas, não há qualquer problema, em vez de carros a gasolina compramos a diesel, assim poupa-se no combustível e nas revisões. Além disso valem mais na revenda.

Ideia número 2: Não se compram mercedes. Os BMW são mais em conta e valem mais na revenda.

Ideia número 3: Não se paga a fornecedores. Como há muitos, vamos mudando até o universo implodir.

Ideia número 4: Começar a transferir activos para o Brasil. Só para o caso disto dar pró torto.

O meu velho pai sempre me disse "deixa-os poisar filho..." mas como é que se deixa poisar quem nunca levanta o rabo da cadeira? Não... velho Aurélio, desta vez tenho de ser eu a levantar voo.

 

 

Qual é o principal problema de uma agência de publicidade? Pensando bem, qual é o principal problema de qualquer empresa em Portugal? Os clientes não pagam. Pura e simplesmente neste país, parece-me, ninguém paga nada a ninguém e quando se paga alguma coisa é assim por especial favor, depois de se andar a mendigar uns 300 dias "...então menina Fátima o Sr. Dr. já assinou o cheque? Ainda não chegou de férias o Dr.? Pois coitado estava a precisar não é? Olhe, veja lá se faz o favorzinho, é que temos ordenados para pagar. Para a semana... talvez... muito obrigado e desculpe".

Quando se desliga o telefone fica-se com um gosto amargo na boca, como se tivéssemos acabado de fazer um alfinete de peito... "acabei de agradecer e pedir desculpa por me deverem dinheiro".

 

Eu aprendi com o meu pai a ser malcriado, "filhote – dizia ele – se não os podes matar, manda umas caralhadas, sempre alivia". Mas por muito nobre que seja a intenção, a solução é pouco prática. Ao fim de uns tempos já só se dizem asneiras e na escola dos filhos, os professores começam a olhar para nós de lado.

Assim e para evitar assassínios em série, algumas empresas honestas recorrem aos serviços de uma outra espécie de profissional iluminado. O Director Financeiro. Certo? Errado.

 

No primeiro dia de trabalho o director financeiro faz-se acompanhar do seu melhor amigo: o saco azul. Os dois são inseparáveis, tal como o Bucha e o Estica, o Tom e o Jerry, o governo e os impostos.

Normalmente o director financeiro é um fulaninho bem parecido, se se gosta do estilo manequim da rua dos fanqueiros. Um pouco hirto de movimentos e vestido com o último grito da moda dos anos 80.

Já o pensamento não. Esse é ágil e vive obcecado em alimentar o seu amigalhaço glutão.

Vivem felizes os dois no seu BM descapotável, ocupados com almoços e jantares que não pagam – uma empresa tem que ter despesas, pois então – um dia no golfe, outro no ténis e mais á frente um súbito acometimento de um Síndrome Vertiginoso que o impede de se levantar da toalha de praia durante 2 semanas. Tal é a frequência com que padecem desta misteriosa doença profissional, que se fazem acompanhar a todo o tempo de um potente protector solar. O Bronze é muito importante e o buraco do ozono é o mais temível inimigo do director financeiro.

A empresa honesta vê-se então transformada numa máquina de lavar roupa em modo de centrifugação. Tudo gira, gira, gira num redemoinho entontecido até á escoagem final. Então, tudo pára e tem-se dificuldade em separar as cuecas dos lenços de assoar. O trigo do joio. Os bons dos maus. Quando uma empresa termina o ciclo de lavagem o director financeiro pega nas molas e deixa os outros pendurados a secar. 

publicado por narizgrande às 13:34

Portugal é giro. Portugal é giro para quem teve a sorte de não nascer cá. Um tipo quer ir de férias, compra um bilhete, marca o hotel, passa umas vacances porreiras mas depois vai-se embora. Volta pra casa. Adeus e até pró ano. Desculpem mas não houve tempo para mais.

Mas eu não. Eu sou de Portugal, nasci aqui, acho que está estragado, digo mal e tenho sempre razão.

Portugal é assim uma espécie de puta velha. Anda nisto há muitos anos, sabe os truques todos da profissão mas não tem clientes em quem aplicar a sabedoria. Os que podem fogem para prostíbulos mais vistosos, onde ainda é possível obter algum prazer e dar por bom o capital investido.

 

Para um gajo que seja designer profissional, Portugal é um sítio mau para se trabalhar. Se se está no negócio por conta própria, todos os clientes têm um sobrinho com muito jeito que faria "esse trabalho por menos de metade do preço". Se se tem o azar de ter um emprego, o mais provável é estar a trabalhar para alguém que acha que ser criativo é não chegar a horas.

Passados uns anos começa-se a pensar que talvez "eles" tenham razão, que o maluco "sou eu" e que esta dor aguda talvez não seja de me irem ao rabo todos os dias.

Quando damos por isso estamos transformados naqueles prostitutos que trabalham só para pagar o vício.

 

Só há uma maneira de se largar um vício seja ele qual for: tem de se querer com muita força. E eu queria com muita força. Mas como todos os viciados, para passar para o outro lado do balcão não se pode continuar a beber a bica no mesmo café. Há que escolher outro estabelecimento para frequentar. Amores, foi o que eu fiz.

 

O problema é que a maioria dos outros estabelecimentos achavam que ser Português é assim uma espécie de doença contagiosa. Um vírus que se espalha quando se espirra e de repente está toda a gente a fingir que trabalha e que é produtivo, quando no fundo só se pensa em comer a mulher do patrão ou em ler "a Bola" de ponta a ponta na retrete.

Nesta fase quero aqui agradecer ao Mourinho. Puto, graças a ti pá, o Português que vai trabalhar "lá fora pra ganhar a vida" passou num abrir e fechar de olhos de "porreiro mas calão" a "genial e perfeccionista".

O Figo também é grande. Mas está velho e não tem aquela cena mística de saber o que vai acontecer no futuro. A gente vê aquele olhar fixo do Mourinho e acha que ele está a ter pensamentos profundos, visões gloriosas do que está para vir e assim.

 

E foi assim que eu me vendi: O Mourinho da publicidade. O mestre da mudança táctica. Mind games. Ganhei o campeonato e mudei de equipa com um contrato milionário... pronto, ok, não exageremos.

Mas quando mudamos de trabalho todos nós gostamos de pensar que foi devido ao nosso talento e tal que a coisa se deu... mas não. Muitas escolhas são aleatórias e baseadas em pressupostos totalmente errados, tipo: "ele disse que não gosta de PC's só de MAC's portanto deve ser sofisticado".

Claro que isso tem muito pouca importancia quando te mandam um bilhete de avião e dizem que contigo na empresa o céu é o limite e tal e tal. Fazes o check-in feliz e deixas a tristeza pra lá, trá- lá -lá, trá- lá -lá.  

publicado por narizgrande às 13:27

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