Um cheirinho do Médio Oriente

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Mai 09

Quando olho para trás, parece que já vivi muitas vidas. Vidas compartimentadas e organizadas por episódios, assim uma espécie de telenovela Mexicana em que os personagens mudam mais rapidamente que os ministros de um governo minoritário.

A principal diferença entre uma novela Brasileira e Mexicana é que na primeira, se deixarmos de a ver durante 3 meses, quando reatamos continua tudo na mesma. Os ricos continuam ricos mas infelizes, os pobres cada vez mais pobres mas muito agradecidos a Deus por tanta felicidade. O Mau ainda é Mau. Os bons, bons permanecem e aquele rapaz que não tinha decidido se era gay, ainda não desmarcou o casamento para ir finalmente viver uma linda história de amor com o robusto mecânico da favela.

A novela Mexicana já é um pouco mais acelerada. Se desviamos o olhar para o pacote de tremoços já a rapariga se casou, teve três filhos, matou o marido infiel, cumpriu trinta anos de prisão e voltou para se vingar de quem a tramou na vida.

 

A minha primeira vida dura até aos 9 anos e acaba com o 25 de Abril. Nesse dia fui porreiramente para a escola e, como todos os dias, fiz o percurso que separa o Arco do Cego do Saldanha só para encontrar o portão da escola fechado. Felicidade. Alegria. Já posso ir jogar à bola.

Não voltei para casa e corri o mais rápido que pude para casa do Fitinhas. Lembro-me que era num pátio interior, sossegado, protegido do trânsito e do mundo lá fora. Ideal portanto para se organizar uma valente futebolada. Passei toda a manhã como avançado centro, feliz da vida a estoirar boladas contra o pobre do irmão mais novo do Fitinhas, que por ser pé chato ficava sempre na baliza.

O meu velho só me descobriu já perto da hora do almoço. Tinha andado por meia Lisboa à minha procura, telefonou a meio mundo até que alguém se lembrou de lhe dar a morada daquela praçeta meio escondida.

Nesse dia levei uma estalada completa. Foi a única vez que o meu pai me bateu, mas deu para perceber que, afinal, o mundo não girava à minha volta.

 

25 de Abril sempre e tal e tal e de repente estou no Liceu Cam­ões a desviar-me das escarretas do Vergílio Ferreira. Essa foi outra vida, mas não me lembro muito bem dela... sei que foi aqui que conheci dois dos meus melhores amigos (só tenho quatro) e pouco mais. Ah! e chumbei tres anos. Ah! e suponho que ficaram curiosos em relação ao Vergílio. Simplesmente o melhor professor de Português que alguma vez tive. Tinha, no entanto, o hábito de no meio da aula, sacar do seu lencito de assoar e puxar das entranhas uma valente escarreta que arremeçava com ímpeto na direção do lenço estratégicamente colocado há distância de um braço.

Tudo isto estaria muito bem, não fossem as correntes de ar. Os lenços não se dão bem com elas, ficam irrequietos, esvoaçam, transformam-se em alvos difíceis.

Quem ficava sentado mesmo à sua frente, temia muito pela higiene pessoal. Mas o velho mestre nunca falhou. Nem mesmo nos dias em que as janelas abertas deixavam entrar o vento quente de verão. Pacientemente, esperava o momento certo e com um poderoso remate da glote convertia mais uma penalidade gargantual.

OK. Lembro-me também de passar mais tempo na Tasca do Careca do que nas aulas.

 

Quando finalmente percebi que o estudo pode danificar seriamente os tempos livres, decidi que queria ser artista e fui para a António Arroio.

Tempos felizes os da António Arroio, se pudesse tinha lá ficado para sempre. A estudar pouco ou nada, a jogar ping-pong com a mão esquerda para o Victor gordo ter hipóteses de ganhar um jogo que fosse, a jogar "tacoball" nos corredores do piso -3, a fazer desenhos de nus, a fugir aos ciganos e principalmente a namorar com a Mena.

 

Conheci a minha marida ali. Lembro-me quando entrou na sala do professor Lebroto.

- Ná! Baixota – comentei pró Ventura.

- Grandes pára-choques – filosofou ele.

- Mas conhecerá Kant? – inquiri curioso.

- Essa Kant é boa?. – Tenho saudades do Ventura.

 

De repente a vida acelerou. Num instante dei por mim a trabalhar para o meu velho e para o meu tio. Um erro grave. Depois de adulto, família é só para se ver de vez em quando, Natal, casamentos, funerais e afins. Mais do que isso é coisa de gente efeminada.

Como nunca se responde torto a um pai como se responderia a um qualquer outro anormal, os colegas começam a pensar "lá vem o filhinho do papá" e está-se quilhado pró resto da existencia.

Um tio devia ser para um sobrinho assim como o sexo é para um padre. Sabe-se que existe, ouviste dizer que é porreiro, mas hoje não posso porque Deus não quer e prontos.

Pirei-me dali e fui, mais a marida, fazer a minha existencia para outra freguesia. Tudo aquilo com que se sonha quando se é adolescente, torna-se finalmente realidade. Uma nova e fascinante vida começa. Trabalho-casa-trabalho-IRS-IVA-IA-empréstimo-trabalho-compra casa-trabalho-IRS-IVA-IA-seguros-trabalho-casa-trabalho-filhota-dois carros porque um já nao chega-empréstimo-trabalho-noites sem dormir-IRS-IVA-IA-seguros-cartao de crédito-trabalho-trabalho-trabalho... Bem bom, nao é?­­

publicado por narizgrande às 13:42

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