Um cheirinho do Médio Oriente

13
Mai 09

Hoje lembrei-me do meu pai. Lembrei-me de quando era miúdo e juntos ia-mos ao cinema.

-         Pai este filme mete porrada?
-         Mete filho.
Lembrei-me de como era teimoso e por vezes distante. Lembrei-me que todos os Sábados ficava horas pregado á janela do meu quarto na esperança que ele me viesse buscar para um passeio ou para um gelado na pastelaria da esquina. Queria ve-lo estacionar o carro e dizer-lhe olá através da janela antes que subisse as escadas apressado. Queria ver se me trazia uma prenda. Queria correr para a porta, saltar-lhe para o colo e dar-lhe um grande beijo na testa.
Muitas das vezes não aparecia nem dizia nada. Era esperar ali, o dia todo, com um aperto no estomago e, apesar de ser miúdo, lembro-me de jurar nunca fazer isso aos meus filhos.
 
A minha mãe tentava desculpá-lo mas eu sabia que também ela chorava baixinho á noite no seu quarto. Partilhávamos aquela solidão em silencio, na esperança que o telefone tocásse e a voz do outro lado dissesse – “Tão prontos? Vá, vamos jantar e ao cinema”. Assim tão simples, como se tivesse saído de casa de manhã e estivesse de volta umas horitas depois.
 
Para jantar, o Galeto, o bifinho do Império ou a Brasileira. A mesa estava sempre pronta e o pessoal cumprimentava o Sr. Aurélio com reverencia. Sentados, faziamos o jogo das palavras. Quem perdesse pagava o jantar.
- H. Homem, hoje, helicópetro, holifante… Ah! Perdi, OK pago eu.
 
Depois o cinema. O Apolo 70, o cinema Berna, o Monumental, o estúdio do Império. Era ali sentado no meio dos meus pais, uma mão para cada um, que a minha família se transformava numa família de verdade. – Mete porrada pai? – Não filhote, hoje não.
Mas o título prometia. ‘Kramer contra Kramer’. Não! De certeza que ele se tinha enganado, com aquele título havia de meter porrada em alguma parte.
 
Não metia. Mas foi como um murro no estomago. Olhando para trás, talvez aquela noite tenha sido uma das mais felizes da minha vida. Aquele filme, feito no outro lado do mundo por alguém que nunca me tinha visto, estava a contar a minha história. Agarrado ás mãos dos meus pais apertei-as com força e chorei. Foi a primeira vez que chorei num filme.
 
Nessa noite o meu pai dormiu lá em casa. Cedo na manhã seguinte enrosquei-me no meio dele e da minha mãe e a medo perguntei:
-         Pai, prometes que ficas para sempre?
-         Sim filhote, prometo. – respondeu passando a mão pela minha cabeça.
 
E durante dez anos cumpriu a promessa.
publicado por narizgrande às 18:43

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