Um cheirinho do Médio Oriente

12
Mai 09

O que é que faz uma agência de publicidade? Ou melhor, o que é que um Director de Arte faz numa agência de publicidade? Bom, segundo o meu vizinho, o meu ex-patrão e 99% dos mortais... nada. Sou um inútil para a humanidade, excepto para a minha mãe e talvez a minha filha, que acham que eu sou um génio. Quanto a mim acho que estou mais ou menos no meio... entre o inútil e o Eugénio, quero dizer.

 

O próprio título engana. A não ser que se trabalhe com alguém chamado "Arte", não se é propriamente "Director" de nada. Muito pelo contrário. Quase toda a gente acha que pode fazer comentários (mesmo os mais idiotas) sobre o teu trabalho. "Não gosto do céu azul", "o tipo de letra está demasiado legível", "espaços brancos só criam vazios", "o preto é uma cor muito escura". Socorro, deixem-me em paz.

Neste aspecto da crítica, as meninas da contabilidade são particularmente perigosas, só porque processam os ordenados acham que têm o direito de questionar conceitos, estratégias e maneiras de vestir assim sem mais nem menos. Eu acho que a informática em última análise, foi criada para eliminar as meninas da contabilidade e só por isso estou grato ao inventor. O problema é que se criou outro mal maior: o técnico de informática.

 

O único propósito na vida de um "técnico de informática" é o de criar problemas aos colegas, só assim ele justifica o dinheiro que recebe ao fim do mês.

E eu tenho provas:

O departamento criativo precisa de computadores novos. O bandido aparece, analisa, e chega à conclusão que se podem poupar uns cobres se, em vez do MAC xpto carapuço comprarmos só o carapuço. Depois reaproveitamos os monitores em mogno que temos na arrecadação e está feito... Passadas 6 semanas ainda estamos a calibrar os monitores e a impressora laser de milhões de cores só imprime a 1 cor porque o sistema não é compatível... mas o patrão está contente porque poupou 1300 euros nos xptos.

Tudo isto nos leva portanto ao topo da pirâmide. O Patrão. O Gestor. O Empresário Moderno. Se for Português e gerir uma agência de publicidade é normalmente e até prova em contrário, filho do patrão. Essa é a sua principal qualidade. O fulano não está ali para trabalhar, ele está ali para mandar nos outros, excepto no pai.

A frase "mas afinal quem é que manda aqui?" é de uso muito comum nas empresas Portuguesas e é normalmente aplicada para acabar com alguma discussão que se perdeu por falta de argumentos e inteligência. E acho que só se aplica a Portugal. Aqui, um tipo que "manda" está demasiado ocupado para pensar ou realmente produzir alguma coisa. Tem que se mandar alguém telefonar ao cliente, mandar fazer a campanha pró banco, mandar buscar um café, mandar a menina Matilde comprar umas prendas pró filho que fez anos e mandar os outros levar onde o sol não bate.

 

O Empresário de Publicidade não tem só um negócio. Tem vários. Provavelmente um restaurante italiano, um stand de automóveis semi-novos e uma casa de alterne – e mesmo que não tenha nenhum dos mencionados é concerteza frequentador assíduo de pelo menos dois deles. O mercado e os potenciais clientes que os frequentam assim o exigem.

 

No fundo da pirâmide está portanto o Director de Arte. Eu. A senhora Catarina está acima de mim porque vai limpar às 6 da manhã e nem sequer tem de levar com o mono do filho do patrão. Nunca o viu e se o vir não sabe quem é.

O Director de Arte. Eu. Tem inveja de não saber fazer mais nada, tudo porque quando era pequeno ficou viciado em fazer desenhos e, o curso profissional de canalizador ou pintor da construção civil lhe passou ao lado. Se os tivesse agarrado, agora sempre tinha algum trolha Ucraniano licenciado em medicina em quem mandar. Parvo.

O seu único consolo eram os "bonecos", era "artista", até a tia Natália lhe comprava as BDs que fazia, para as oferecer como prenda de Natal. Depois apareceu o Steve Jobs e estragou tudo. Agora está agarrado ao  MAC OX com o Photoshop, html, xml, css e outras siglas que parecem vindas de um curso pós laboral de geometria descritiva criado pela CGTP a encherem-lhe a mona.

 

A vida corria  pois, a modos que normalmente. Digo "corria" porque um dia ao regressar de férias estatelou-se no chão e desde então passou a andar muito mal, coitadinha.

Nesse dia foi apresentado ao Director de Arte – Eu – o novo e reestruturado departamento criativo, todo já embrulhadinho com um novo Director Geral. Um moço com quem simpatizei e passei a chamar de cu-de-pedra. Isto porque desde que chegou revelou alguma dificuldade em levantar o dito cujo da cadeira.

O cu-de-pedra era muito amigo do filho do patrão e gostava de ser tratado por Dr.

 

Aqui vou fazer um áparte para abordar este fenómeno Português do Dr. Ora eu tenho para mim que o Xô Doutor, é o gajo que nos trata duma gripe, de um braço partido ou de um corrimento qualquer. Não é alguém que trabalha connosco ou mesmo alguém que acabámos de conhecer e a quem casualmente perguntamos "Desculpe, o seu nome...?"

- Doutor Fulano de Tal.

- Ai sim? Coitado. Os paizinhos quiseram dá-lo quando nasceu? Dou-to, dou-to... e ficou Doutor.

 

O cú-de-pedra era então muito amigo do filho do patrão e gostava de ser tratado por Dr. O Doutor cú-de-pedra tinha pois ideias brilhantes e revolucionárias que iriam "levar esta empresa para a frente". O problema é que era para a frente de um autocarro sem travões.

Ideia número 1: Quando uma empresa está com dificuldades económicas, não há qualquer problema, em vez de carros a gasolina compramos a diesel, assim poupa-se no combustível e nas revisões. Além disso valem mais na revenda.

Ideia número 2: Não se compram mercedes. Os BMW são mais em conta e valem mais na revenda.

Ideia número 3: Não se paga a fornecedores. Como há muitos, vamos mudando até o universo implodir.

Ideia número 4: Começar a transferir activos para o Brasil. Só para o caso disto dar pró torto.

O meu velho pai sempre me disse "deixa-os poisar filho..." mas como é que se deixa poisar quem nunca levanta o rabo da cadeira? Não... velho Aurélio, desta vez tenho de ser eu a levantar voo.

 

 

Qual é o principal problema de uma agência de publicidade? Pensando bem, qual é o principal problema de qualquer empresa em Portugal? Os clientes não pagam. Pura e simplesmente neste país, parece-me, ninguém paga nada a ninguém e quando se paga alguma coisa é assim por especial favor, depois de se andar a mendigar uns 300 dias "...então menina Fátima o Sr. Dr. já assinou o cheque? Ainda não chegou de férias o Dr.? Pois coitado estava a precisar não é? Olhe, veja lá se faz o favorzinho, é que temos ordenados para pagar. Para a semana... talvez... muito obrigado e desculpe".

Quando se desliga o telefone fica-se com um gosto amargo na boca, como se tivéssemos acabado de fazer um alfinete de peito... "acabei de agradecer e pedir desculpa por me deverem dinheiro".

 

Eu aprendi com o meu pai a ser malcriado, "filhote – dizia ele – se não os podes matar, manda umas caralhadas, sempre alivia". Mas por muito nobre que seja a intenção, a solução é pouco prática. Ao fim de uns tempos já só se dizem asneiras e na escola dos filhos, os professores começam a olhar para nós de lado.

Assim e para evitar assassínios em série, algumas empresas honestas recorrem aos serviços de uma outra espécie de profissional iluminado. O Director Financeiro. Certo? Errado.

 

No primeiro dia de trabalho o director financeiro faz-se acompanhar do seu melhor amigo: o saco azul. Os dois são inseparáveis, tal como o Bucha e o Estica, o Tom e o Jerry, o governo e os impostos.

Normalmente o director financeiro é um fulaninho bem parecido, se se gosta do estilo manequim da rua dos fanqueiros. Um pouco hirto de movimentos e vestido com o último grito da moda dos anos 80.

Já o pensamento não. Esse é ágil e vive obcecado em alimentar o seu amigalhaço glutão.

Vivem felizes os dois no seu BM descapotável, ocupados com almoços e jantares que não pagam – uma empresa tem que ter despesas, pois então – um dia no golfe, outro no ténis e mais á frente um súbito acometimento de um Síndrome Vertiginoso que o impede de se levantar da toalha de praia durante 2 semanas. Tal é a frequência com que padecem desta misteriosa doença profissional, que se fazem acompanhar a todo o tempo de um potente protector solar. O Bronze é muito importante e o buraco do ozono é o mais temível inimigo do director financeiro.

A empresa honesta vê-se então transformada numa máquina de lavar roupa em modo de centrifugação. Tudo gira, gira, gira num redemoinho entontecido até á escoagem final. Então, tudo pára e tem-se dificuldade em separar as cuecas dos lenços de assoar. O trigo do joio. Os bons dos maus. Quando uma empresa termina o ciclo de lavagem o director financeiro pega nas molas e deixa os outros pendurados a secar. 

publicado por narizgrande às 13:34

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