Um cheirinho do Médio Oriente

12
Mai 09

No Golfo não existe aquilo a que chamamos o 'primeiro dia de trabalho'. Naturalmente um Árabe achará que qualquer novo trabalhador, já terá trabalhado noutro qualquer lugar, não havendo – segundo ele – a  necessidade de explicar normas, procedimentos, documentos, apresentar pessoas ou mesmo indicar onde fica a casa de banho.

Limpar o cú é uma tarefa difícil por aqui. O rolo de papel é um conceito estranho em qualquer empresa Árabe, tendo sido substituído por uma mangueira de alta pressão.

Instalada ao lado da sanita, tem por objectivo o lavar das partes depois de feito o serviço. Tenho para mim que é preferível sair com as cuecas borradas a usar esta geringonça. Se a usar irá sentar-se na próxima reunião com a peida molhada até aos intestinos e com os sapatos a fazerem 'shlak' shlek'. Terá também os tomates completamente escalfados, porque em lado algum estava escrito que a água saía a ferver.

 

Bom, sobrevivendo á missão 'necessidade fisiológica de carácter sólido', eis-nos chegados ao posto de trabalho. De si espera-se (no mínimo) que saiba tudo sobre tudo, que tenha respostas para tudo, que nunca tenha dúvidas e que raramente se engane. Familiar? Óptimo, é sempre bom ter conhecido alguém que se tenha safo a agir assim.

Mesmo que tenha alguma dúvida, não vale a pena perguntar nada. O seus subordinados são Indianos e só sabem responder 'sim' a tudo:

- Olá, sabe onde é a máquina do café?

- Sim.

- ... er, é aqui perto? Direita? Esquerda?

- Sim.

- Percebeu o que eu perguntei? (irritado, apesar de não valer a pena).

- Sim. (muito assustado, com medo que o mandem matar por esfolamento).

- Mau. Tamos a brincar ou quê?

- Sim. – sorrindo e abanando a cabeça da esquerda pra direita e vice-versa paralelamente.

O pessoal do sub-continente tem este tique estranho do abanar a cabeça. Não é 'sim' nem 'não', é assim uma espécie de 'nim' que repetem até à exaustão enquanto falamos com eles.

Mas calma. Não vale a pena procurar a máquina do café. Peça ao Indiano que lhe traga um. Ele vai concerteza dizer que sim.

 

Haverá também funcionários Filipinos. Estes só sabem responder 'NÃO'. A tudo. Além disso não conseguem dizer os 'F', tornando qualquer tentativa de comunicação infrutífera.

- Bom dia, pode-me fazer 3 cópias deste documento e entregar ao Hassan?

- Não. Pui ontem pazer e agora já não há papel.

- Limpe com o jacto de água (tentar fazer humor só piora).

- Não. Posso estragar a máquina.

- Vá lá, faça um esforço e diga ééééffffffeeeee...

- Não. Pico opendido, eu sei dizer os érpes perpeitamente.

 

Nenhum Europeu normal, aguenta trabalhar nestas condiçoes mais do que uma semana sem invocar a morte do tal familiar. Felizmente, os Portugueses não são Europeus e adaptam-se lindamente à bagunça generalizada.

Não meus amigos, nós não somos Europeus. Nem Africanos. Nem nada que se pareça com nada. Gostamos de coisas que mais ninguém gosta (fado, novelas da TVI e pegas-de-caras), fazemos coisas que mais ninguém faz (julgamentos que duram anos, obras públicas que derrapam mais que o carro do Sebastien Loeb) e elegemos criminosos para cargos públicos só porque são do nosso clube. Somos Árabes. Mas sem petróleo. Até o Saramago anda a fingir que é Espanhol, só para ter algum respeito.

 

Estranhamente, o pessoal do Médio Oriente gosta de nós. Quando descobrem um Português desatam a desbobinar, todos contentes, sobre os bons e valentes anos em que os explorámos e matámos a torto e a direito (o Vasquinho da Gama). E até este gosto macabro pela morte e o choro constante da vida nos unem como um povo só.

 

Mas voltemos ao trabalho. Bom, os Árabes não trabalham. Pagam para que outros trabalhem por eles. Não, espera. Na realidade existem dois tipos de Árabes: os Sunitas e os Xiitas.

Os Sunitas não trabalham. De todo. Os Xiitas trabalham duro quando se trata de matar Sunitas.

Uma empresa Sunita por norma não emprega Xiitas, assim como o contrário também é válido. O problema é que 90% das grandes empresas são Sunitas, o que deixa os outros coitados chateados, desempregados e sem dinheiro. Estão a ver onde é que isto vai dar... não estão­?

 

Como é que se estrutura então a empresa Árabe?

Sunita – Patrãozinho. Chega por volta das 4 da tarde. Sai por volta das 4 da tarde.

Europeu – Pago a peso de ouro para fingir que trabalha. Por estas bandas também é fino ter um Director Geral louro e de olho azul.

Português – A prata também é um metal precioso, só que mais fácil de trabalhar.

Xiita – Passa o tempo a conspirar a morte do patrão e a ver videos pornográficos no telemóvel. Como só perdem a virgindade por volta dos quarenta anos, estão permanentemente e literalmente prontos a explodir.

Indiano – O bufo por natureza. Mete tudo no cú do patrão (sim, até aquilo que estão a pensar).

Filipino – O Patrão mete tudo no cú dele (sim, principalmente aquilo que estão a pensar).

Paquistanês – Até hoje ainda não percebi bem qual a função dum Paquistanês numa qualquer empresa. Nem no mundo, se pensarmos nisso.

Até prova em contrário está por cá para levar os carros, que ele próprio arruína, ao bate-chapas.

Mulheres – Ainda não vi uma mulher trabalhar por estes lados. Na realidade ainda não vi uma mulher.

 

Mas o dinheiro cai do céu. Paga-se adiantado meus amigos!! O cliente encomenda e paga já de seguida. Pronto, neste aspecto somos um bocadinho diferentes. Se isto acontecesse em Portugal, no dia seguinte a empresa estava recolocada no Brasil a viver paulatinamente dos ´rendimentos´. Tenho que reconhecer que este conceito de honestidade e ética orçamental, foi um pouco difícil de assimilar depois de tantos anos de trabalho Luso. No começo chegava a casa um bocado atordoado por ver tanto dinheiro entrar, sem ainda se ter iniciado qualquer projecto. Também não ajudava, o facto de toda a gente pagar em dinheiro vivo. Montes de notas para depositar, que postas na mão do miserável Paquistanês seria o equivalente, em Lisboa, a dar as chaves do Porche a um moçinho da Quinta do Mocho para ele parquear o bicho e esperar que ainda pagasse o parquímetro.

 

Depositar cacau num banco Árabe é por si só uma experiência alucinante. Para já, o conceito de horário de trabalho é coisa de que só vagamente se ouviu falar. Assim sendo, quando nos dirigimos a um balcão, nunca sabemos se vai estar aberto, fechado ou assim-assim (os funcionários estão lá dentro, mas não lhes apetece abrir a porta). Mas admitamos que a porta está aberta e há gente por lá a trabalhar.

Entram então os pobres Paquistaneses, a maioria com montoes de notas nos braços (sim, literalmente) que a custo colocam em cima do balcão para o funcionário contar. Ora este processo pode ser um pouco moroso, o que significa perder uma tarde inteira a olhar para rios de dinheiro que, infelizmente, não nos pertencem e que mais tarde vão servir para comprar um clube de futebol e empregar o José Mourinho.

Também é giro o processo de pedir um empréstimo num banco Islamico. Depois de se responder a estas três perguntas difíceis:

- Tens trabalho? - Sim.

- Tens conta aqui? - Sim (não é necessariamente necessário).

- Tens Mãe e como se chama? - Sim e Helena. E não, não estou a brincar, eles perguntam mesmo isto.

Passamos então a um poderoso mecanismo de escrutínio que consiste em apresentar uma fotocópia do passaporte, e pronto já está. Aprovado. Dinheiro na conta. Era para comprar um carro mas podemos comprar uma Filipina se nos apetecer, ninguém leva a mal.

 

Há muita gente a comprar Filipinas hoje em dia. Segundo dizem, consomem pouco e fazem-se muitos quilómetros sem haver necessidade de mudar o óleo (têm boa lubrificação). Porque são pequenas, só levam um dono de cada vez, o que faz valorizar aquando da troca.

Nestes tempos modernos, em que redescobrimos a nossa condição de pobres, é bom saber que ainda há coisas mais pobres do que nós.

publicado por narizgrande às 13:45

Agosto não é o melhor mês para se chegar ao Médio Oriente. No momento em que se põe o pé fora do aeroporto, já se está a desejar voltar para trás rapidamente e em força. O calor é tanto que parece uma bomba a explodir devagarinho, num instante todos os porquês em relação aos motivos que levam um homem a querer fazer-se rebentar, ficam esclarecidos­. Mais vale morrer depressa do que assim, aos bocadinhos. Olha...estranhamente, morrendo depressa também acabas em bocadinhos.

Mas eventualmente um tipo habitua-se. Os que usam óculos demoram mais tempo porque não conseguem ver nada, a humidade embacia as lentes cada vez que se põe o cú na rua tornando até a simples tarefa de chamar um taxi, impossível de realizar.

 

Nunca se deve andar de taxi no Médio Oriente. Ponto final, parágrafo, travessão. Se por uma raríssima conjugação de factores não houver outra hipótese (ter as duas pernas amputadas e o caminho de volta é a subir, impedindo-o de rebolar até ao destino), só se deverá pôr um cabelo que seja dentro da viatura, depois de garantir os seguintes pressupostos:

1-Que o condutor não é Árabe. Se for, e não tiver combinado préviamente o preço da viagem, vai ver o seu dinheiro ser-lhe sugado por um vampiro com cio.

2-Que o condutor não é Indiano. Se for, vai concerteza perder-se de propósito e as 3 horas que demorar o percurso vão ser passadas a ouvir o grande sucesso "Radjivandreleportmele" em altos berros.

3-Que o condutor não é Paquistanês. No Paquistão não existem estradas e deve ser proibido conduzir com carta de condução.

4-Que o carro não tem o controle de velocidade apontado nos 340km/h.

5-Como de certeza o condutor vai falar ao telemóvel enquanto bebe café Turco, não lhe vão sobrar mãos para usar o volante. Assim, deverá despedir-se dos seus familiares e fazer o seu testamento antes de iniciar a viagem.

 

Nunca deverá em caso algum aceitar trabalhar numa empresa Árabe, sem previamente ter planeado com detalhe a morte de um familiar próximo. Isto é muito importante. A 'verdade' não é para ser dita quando se deixa uma empresa. Apenas um falecimento inoportuno poderá quebrar um contrato de trabalho sem levantar a suspeita de que esteja a sair com intenções malévolas, levando todos os clientes consigo.

Desde o primeiro dia de trabalho todos os colegas e especialmente o patrão, deverão saber quão chegado você é á avó Jacinta, quanto lhe custou ter deixado a velhota e como a sua saúde é frágil.

A diabetes é uma óptima doença. A avó Jacinta deverá ser diabética. Os Árabes em geral arrastam o cú pela vida, passando o tempo a comer doçes com aspecto asqueroso, tornando-se invariavelmente diabéticos.

No golfo há mais hospitais para diabéticos que células cancerosas num tumor maligno. Assim, o sofrimento da avó Jacinta – e por consequência o seu – será compreendido pelos indígenas. Terá o seu bilhete de regresso e uma lágrima no canto do olho sem necessitar temer pela própria vida.

 

Todos os Árabes – especialmente o seu novo patrão – vão dizer que são seus irmãos. Isto deve-se ao facto de ao fim de séculos de casamentos intra-familiares, os pobres coitados estarem confusos sobre quem é realmente 'família'. Ou então estão só a querer ser simpáticos, mas isto só acontece se tiverem alguma coisa a ganhar, assim:

- 'Meu irmão, tenho um problema muito grave, meu irmão.

- Ai sim? Conta lá, se puder ajudar nalguma coisa...'

- Meu irmão, apareceu este trabalho para amanhã e este cliente é um irmão meu... meu irmão ajudas-me a resolver este problema?

- Er... bem... se precisas...

- Serás sempre meu irmão. Eu sei que vais ter de ficar a trabalhar a noite inteira, mas este cliente é nosso irmão.

- Achas que posso contar um dia extra nas férias para compensar?

- Inshallah.

Isto significa não. Sim também significa não. A palavra 'não' só é utilizada como resposta a uma pergunta feita na negativa.

- Esta Filipina não tem herpes, pois não?

- Não, não, não (la, la, la) meu irmão, conheço a irmã dela – é minha housemaid – são uma família muito saudável...

 

Os Árabes dividem o mundo em 4 partes. Os ocidentais, que  podem todos ser incluídos no agrupamento 'irmãos'. Os Indianos e Paquistaneses no grupo 'irmãos-inferiores-para-explorar-até-à-medula', os Asiáticos 'irmãos-para-saltar-para-cima' e finalmente os Israelitas: escumalha-que-deve-ser-morta-antes-dos-'irmãos'-ocidentais.

Como é que se pode querer liquidar alguém a quem se chama 'irmão?', perguntei-me eu. Fácil. Como há pouco que fazer, sofrimento é sinal de que se está vivo.

Os moços do subcontinente Asiático não podem ser mortos, pelo menos não rapidamente. Com as suas mãozinhas esfomeadas constroem estes países gordos de dinheiro, vestidinhos com os seus fatos-de-macaco azulinhos alinham-se ordeiramente na parte de trás de uma pick-up velha e sonham em mandar os 50 Dinars que ganham ao mes, para a família que sobrevive na aldeia branca que deixaram para lá do mar... vamos brindar.

 

Mas vamos lá trabalhar.

publicado por narizgrande às 13:43

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